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E tudo começou num simples memorando, numa lista de intenções...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.05.11

 

Este rio saltou o mês de Abril, já repararam? Passou por uns rápidos tão agitados que por pouco a nossa frágil jangada se despedaçava nos rochedos laterais. Quando a água atravessa uma garganta subitamente estreita e há um desnível no leito, tudo se torna violento e ensurdecedor. Essa é a incrível força da natureza. E da vida também. A lógica da vida segue a lógica da natureza. A Marilyn desmaia de exaustão, o miúdo grita o seu nome e pergunta ao pai se ela vai morrer. O Robert Mitchum terá de a reanimar e tudo volta à rotina pacífica dos dias e das noites, mas não por muito tempo. Todos sonham com essa paz doce e amena, mas a vida terrena não permite tal ideal de vida, talvez porque a própria natureza desconhece essa quietude, e a vida exija constante agitação. Afinal, estar vivo é estar activo, é estar a mudar constantemente.

 

Neste outro filme, Jerry Maguire, há também um homem, uma mulher e um miúdo. Este filme sempre me impressionou, porque mostra uma perspectiva que raramente vemos nos relacionamentos: o início de uma colaboração baseada na inspiração de um simples memorando. O homem que se inspirou e escreveu um memorando, e com esse memorando inspirou a rapariga. Era apenas uma lista de intenções, dir-lhe-á quando se viu fora da empresa. Esta cena é das mais interessantes que eu já vi em filmes sobre as relações de poder em grandes empresas e sobre o trabalho competitivo. A rapariga acompanha-o nessa saída, inspirada pelo que leu nesse memorando. Acredita nele e segue-o. Mais tarde, ele dirá ao amigo que essa fora a razão de ter casado com ela: foi leal.

 

Bem, antes de se lançar nessa aventura dos afectos, da definição de um lugar familiar, podemos mesmo dizer que houve uma revolução na vida deste homem de discurso fácil e sorriso sedutor. A lógica da sua vida já não é suficiente. E só vê isso quando está na mó de baixo. A reacção da namorada não o satisfaz: culpa-o de ser um falhado. Talvez só nessa altura ele tenha percebido que a sua relação tinha bases muito pouco sólidas. Acaba por terminar ali mesmo o compromisso, levando ainda dois valentes murros de uma namorada em fúria.

É nesse estado, confuso e fragilizado, que aparece à rapariga leal. Um outro equívoco surge: fica encantado com o filho da rapariga. Criam de imediato uma cumplicidade bem-humorada. Também dirá ao amigo a outra razão de estar com ela: o miúdo é engraçadíssimo.

 

A cena mais sexy do filme: quando ele a leva a casa. É talvez a mais sexy que alguma vez vi à porta de casa de uma rapariga (e nos filmes americanos eles vão acompanhá-las mesmo à porta e ficam à espera do beijo). Registei a banda sonora da cena, porque a cena é deliciosa: ela no seu vestidinho preto, de alças, ele todo sedutor e insinuante.

 

É claro que, como a maioria das comédias românticas americanas, está cheia de clichés, (mas até não são dos piores, como um dia ainda hei-de aqui referir, tenho toda uma lista deles), mas o filme é, pelo menos para mim, mais do que uma simples comédia romântica.

Retrata o mundo competitivo dos agentes desportivos, mas também o mundo competitivo dos jogadores profissionais, os riscos que correm, em que um erro na sua carreira pode pôr tudo a perder.

Fala da amizade e da lealdade: não apenas do Jerry e da rapariga, mas também do Jerry e do jogador que representa.

Mostra os equívocos iniciais de uma relação amorosa e a complexidade das razões que a mantêm. E que, mesmo começando com o pé esquerdo, se pode retomar o caminho, porque o que os liga é muito mais forte do que inicialmente pensavam.

 

Mas a mensagem mais importante do filme está na discussão entre Jerry e o jogador: tens de jogar com o coração... não pode ser calculismo financeiro, tem de haver paixão.

Bem, o jogador irá despertar em si mesmo essa paixão nos jogos seguintes, sem dúvida, até ao jogo memorável, em que toda a assistência fica na expectativa quando desmaia na sequência de uma queda aparatosa. Minutos de aflição da mulher, dos filhos e do Jerry. Quando finalmente acorda e antes de se levantar, diz ao treinador, com ar malicioso: Deixem-me saborear isto só um pouco mais. Uma cena fabulosa e hilariante!

 

A família, aqui vista como um lugar-refúgio, no meio de um mundo cínico, muito competitivo e hostil. E a amizade, como base das relações, mesmo as profissionais.

A identidade como construção a partir de experiências vividas, como o que se lê no olhar de outros: o homem que ele quer ser... o homem que ele pode ser...

 

 

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publicado às 11:05

Excesso de bagagem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.11

 

Nas Nuvens deixou-me perplexa. Construção em documentário, interacção de personagens muito realista e verosímil. O nosso herói preconiza a simplificação da existência pela libertação do excesso de bagagem que vai desde as tralhas inúteis aos relacionamentos e compromissos. No final (do filme) sofrerá um rude golpe que o confrontará com a organização da sua vida. 

 

Muito actual no tema (os despedimentos de pessoal), na rapidez e eficiência dos resultados a apresentar nas organizações, na forma fria e artificial como as empresas tratam os seus recursos humanos, como esquecem a sua dimensão humana.

Muito actual na forma como se organizam as vidas, quase incompatível com a atenção e a tranquilidade que os relacionamentos requerem. Adiar a estabilidade, o medo do que isso significa. O nosso herói, adolescente tardio, sofre esse conflito, o desejo de um ninho, a nostalgia desse ninho, e o desejo de nunca parar, de debicar alegremente a vida. E no entanto, será ele a acalmar o pânico do noivo da sobrinha na manhã do casamento.

Está prestes o nosso herói a sofrer um rude golpe na sua auto-estima e valor próprio: a mulher que pensava estar sintonizada com ele na possibilidade de um ninho algures entre viagens aéreas vê-o como um intervalo, umas mini-férias da família. George Clooney consegue transmitir toda a ansiedade e a decepção nesse telefonema breve: Pensava que querias o mesmo, diz-lhe ela. Ele perde a voz por momentos. Magnífico.

 

Nas Nuvens é também um exercício fundamental sobre a loucura das organizações (empresas, instituições, etc.), a forma como organizam o trabalho e tratam os seus recursos humanos. Vejam e revejam esses desabafos emocionados de pessoas simples e comuns na reunião do despedimento. Como verbalizam ali o essencial sobre si próprios, o seu valor próprio, e as coisas para si fundamentais: o amor e a família. A sua humanidade.

 

Outro filme sobre excesso de bagagem é O Turista Acidental. O nosso herói mantém esta cultura no trabalho que exerce: escreve sobre viagens de negócio sem ser tocado pelas diferenças culturais.

 

Um filme sobre laços familiares de dependência mútua, em que tudo parece funcionar em simbiose mas em que um elemento assume o papel maternal. Um drama - a perda do filho - coloca o casal na depressão e na incapacidade de virar a página. O nosso herói adormece as emoções e o desespero no trabalho, mas a mulher não o consegue fazer e ilude-se na necessidade de partir. O espaço qiue deixa ao nosso herói torna-se na sua possibilidade de sentir finalmente a dor, as emoções reprimidas.

 

O filme está construído de forma muito inteligente, como um guião turístico de viagens para homens de negócios, só que em vez de lhes propor conhecer os locais e as suas especificidades, defende-os desse confronto. 

A minha cena preferida é a do nosso herói a pegar na mão do miúdo frágil, filho da nova amiga, enquanto o guião do livro refere que um viajante pode ser surpreendido com um novo item na sua bagagem.

Mas há também a cena do abraço reconfortante, que é como chegar a casa. E o nosso heroi chega a casa da forma mais improvável possível.

Interessante observar no filme duas atitudes completamente diversas perante os desafios da vida: o nosso herói procura defender-se da vida e dos outros, a nova amiga aproveita todas as oportunidades para viver novas experiências. Trata-se de um encontro feliz, a possibilidade de mudar a bagagem.

 

 

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publicado às 10:54


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